Residências artísticas

Rodrigo Braga

PONTO ZERO é o titulo do trabalho que Rodrigo Braga desenvolveu durante uma residência nas Aldeias do Xisto no Conselho do Fundão em Julho e Agosto 2019. Este trabalho em conjunto com o resultado de outras residências será exibido logo que a pandemia o permita.

PONTO ZERO
O que vê, sente, percebe e cria um artista quando passa uma temporada por entre as Aldeias do Xisto, no interior de Portugal, às margens do rio Zêzere, em trilhos em áreas de mineradoras, e por entre florestas de pinheiros e suas queimadas constantes? Essa foi a proposta do Projeto Entre Serras ao brasileiro Rodrigo Braga, acostumado por se expressar através de mimesis com a natureza em suas distintas exuberâncias, seja na imensidão amazônica, na seca do sertão brasileiro ou em tantas outras paisagens de diversos continentes.
Durante o verão de 2019, o artista fez uma residência na região (Conselho do Fundão), onde pode dialogar com as histórias daquele lugar e buscar a sua forma de reconhecimento com o meio envolvente.
Braga nos apresenta as suas descobertas e o seu processo ao sair da sua caverna. Assim como pode ser observado na sua produção dos últimos anos, o artista se utiliza de elementos e materiais distintos e contrastantes, que confrontam-se mas também nos mostram a
interdependência de um para existir o outro. A escuridão e a luz. A ignorância e o conhecimento. Saindo da sombra e do senso comum, o artista percorre as profundezas de
uma terra queimada e explorada, e encontra a formação mais básica e primária de um lugar: a pedra.
A morte da natureza é vivida e o artista entende-se parte do todo: despe-se e arranca seus cabelos sendo capaz de mimetizar com esse lugar onde está, mas que também é de onde viemos e para onde vamos. Como se compreendesse a necessidade de morrer para renascer, Braga se aprofunda e chega ao centro da terra e nos apresenta uma tentativa de zerar tudo e
recomeçar do zero. O homem, o meio e suas interações.
O preenchimento desse espaço só é possível depois de esvaziado por completo. Assim, o artista apresenta um renascimento do globo desde o seu cerne, com pedras que são chocadas por um homem também em sua forma mais primitiva.
Ponto Zero nos oferece um caminho de pedras já lapidadas pelas mãos de Rodrigo Braga, a ser descoberto se quisermos nos aventurar a também sairmos de nossas próprias cavernas.
Marcella Marer

Rodrigo Braga (Manaus, 1976) vive entre o Rio de Janeiro e Paris. Expõe com regularidade desde 1999. Possui obras em acervos particulares e institucionais no Brasil e no exterior, como MAM-SP, MAM-RJ e Maison Européenne de La Photographie – Paris.

A participação na 30ª Bienal de São Paulo em 2012 consolidou Rodrigo Braga como uma referência dentro do panorama da arte contemporânea brasileira, pela sua radical interrogação
das dimensões animal e natural da existência humana.
A inscrição do próprio corpo em contextos literalmente naturais, em cenas de representação que se desenvolvem em interstício entre o animal e o humano, o natural e o cultural, e a densidade da matéria e da dimensão simbólica da sua obra fazem dela, por meio da fotografia, do vídeo e da performance, um conjunto capaz de iluminar, a partir da arte, uma das
discussões estéticas e políticas mais contundentes e urgentes do nosso tempo, a saber, aquela que interroga as mutações e a perda da centralidade da condição humana e a ré-emergência
da sua dimensão animal no quadro de um mundo submetido a tensões ideológicas que incessantemente projetam uma ilusão de globalidade e virtualidade no exercício das relações entre as pessoas.
http://www.rodrigobraga.com.br

Rodrigo Braga (Manaus, 1976) currently splits his time between Río de Janeiro and Paris. He has been exhibiting regularly since 1999 and participated in the 30th São Paulo International Biennial in 2012. His work is represented in private and institutional collections in Brazil and abroad, such as Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), Museu de Arte Moderna de Río de Janeiro (MAM-RJ), and Maison Européene de La Photographie, Paris. Locally, Rodrigo Braga was part of the “Cruzamentos: Contemporary Art in Brazil” exhibit organized by the Wexner Center for the Arts in Columbus, Ohio in 2014.
Participation in the 30th São Paulo Biennial in 2012 solidified Rodrigo Braga as a reference within the landscape of contemporary Brazilian art, for his radical questioning of human existence. The inscription of the body itself is in literally
natural contexts, in scenes of representation that develop in interstices between the animal and the human, the natural and the cultural. The density of matter and the symbolic dimension of his work make it, through photography, video, and performance, a set capable of illuminating one of the most compelling and urgent aesthetic and political discussions of our time; this discussion is one that questions the mutations and the loss of the centrality of the human, as well as the reemergence of its animal dimension in the context of a world subjected to ideological tensions that incessantly project an illusion of globality and virtuality in the exercise of relations between people.
http://www.rodrigobraga.com.br

PONTO ZERO (Zero Point, 2019)
What does an artist see, feel, perceive, and create when he spends a season between the Schist Villages, in the interior of Portugal, on the banks of the Zêzere River, on tracks in mining areas, and through pine forests and their constant fires? This was Brazilian artist Rodrigo Braga’s proposal for the Entre Serras Project, which he used to express himself through mimesis with nature in its different exuberant fields, whether in the immensity of the Amazon, in the drought in northeastern Brazil, or in so many other landscapes of different continents. During the summer of 2019, the artist made an artistic residency in the region (Fundão Council ), where he could dialogue with the stories of that place and seek his form of recognition with the ambience. Braga presents his discoveries and his process as he leaves his cave. As can be observed in his production in recent years, the artist uses distinct and contrasting elements and materials, which confront each other
but also show us the interdependence of their mutual existence of the other. Darkness and light, ignorance and knowledge. Coming out of shadow and common sense, the artist travels through the depths of a scorched and exploited earth, and finds the most basic and primary formation of a place: the stone.
The death of nature is lived and the artist understands himself as part of the whole, he undresses and cuts off his hair, being able to mimic with that place where he is, but which is also where we came from and where we are going to. As if understanding the need to die in order to be reborn, Braga goes deeper and reaches the centre of the earth and presents us with an attempt to reset everything and start again from scratch. The man, the medium and its interactions. The filling of this space is only possible after it has been completely emptied. Thus, the artis presents a rebirth of the globe from its core, with stones that are shocked by a man also in their most primitive form.
Zero Point offers us a path of stones already cut by the hands of Rodrigo Braga, to be discovered if we want to venture out of our own caves.
Marcella Marer

Laetitia Morais

Laetitia Morais desenvolveu TARDE FRIA durante uma residência nas Aldeias do Xisto em Agosto 2019, entre a Barroca do Zêzere e o Cabeço do Pião. Este trabalho em conjunto com o resultado de outras residências será exibido logo que a pandemia o permita.

As ideologias em declínio e a temporalidade da crítica são
motivos recorrentes no trabalho de Laetitia Morais (Paris, 1984). Bolseira Ernesto de Sousa 2011 (Fundação Gulbenkian + FLAD); prémio melhor vídeo musical 2016 (Festival de Cinema Vila do Conde), bolseira de investigação 2018 pela Academia das Artes de Viena e com a AIR 2019 Award pelo Ongoing Art Center Tokyo. É professora na Universidade de Coimbra e doutoranda
na Zurich University of Arts e kunstuniverstät Linz.
Na exposição PES@DASiN Laetitia apresenta uma obra videográfica na forma de instalação, já que se requeria a visualização simultânea de intrincadas qualidades territoriais entre o Cabeço do Pião e a Barroca do Zêzere, região onde desenvolveu a sua residência PES.

Relatos documentais ou devaneios urgem questionar os efeitos da exploração mineira na paisagem e na vivência dos seus habitantes. Os minerais recolhidos do subterrâneo e expostos à luz, na forma de colinas invertidas as chamadas lavrarias ou escombreiras – impõem-se numa paisagem onde sobra muito pouco de pristino.

https://laetitiamorais.weebly.com/

TARDE FRIA – 2019
Esta instalação propõe a visualização simultânea de contraditórias qualidades territoriais da região entre o Cabeço do Pião e a Barroca do Zêzere. Relatos documentais ou devaneios urgem questionar os efeitos da exploração mineira na paisagem e na vivência dos seus habitantes.
Os minerais recolhidos do subterrâneo e expostos à luz, na forma de colinas invertidas – as chamadas lavrarias ou escombreiras – impõem-se numa paisagem, onde resta muito pouco de pristino.
Esperança Antunes e o seu companheiro José Catarino percorrem, duas vezes ao dia, o ténue caminho que separa o rio Zêzere das lavrarias de minério. Ao longo desse caminho – dizem eles – ou se canta, ou se chora, ou se remete ao silêncio.
Contudo, nada é autoevidente – as imagens movem-se na relação intrínseca entre efeito-afeto e é precisamente pela indeterminação que esta obra se apresenta.
Recorde-se a definição de «terceira zona» de Michel Serres, onde nem o Sol nem a Terra são o centro. Ele refere que o centro real de uma órbita se situa entre a esfera brilhante e o ponto sombrio (1).
Deslocar matéria do centro da terra para o seu exterior parece igualmente influir a trajetória do que o circunda: Esperança declara o seu intento, a cobra canta e o rio morre.


Os registos vídeo e áudio foram produzidos durante um período de residência artística em Agosto 2019, com o apoio das Aldeias de Xisto.


(1) “Le centre réel de chaque orbite gît exactement à une tierce place, juste entre ses deux foyers, le globe étincelant et le point obscure.”
Serres, Michel (1991), Le tiers-instruit

Declining ideologies and the temporality of criticism are recurrent motives in Morais’s work. She has participated in many international events and received many accolades, including the Scholarship Ernesto de Sousa 2011 (Gulbenkian
Foundation + FLAD), the 2016 best music video award (Vila do Conde Film Festival), 2018 research grant from the Vienna Academy of Arts, and the AIR 2019 Award from the Ongoing Art Center Tokyo. She is currently a professor at the University of Coimbra and a doctoral student at Zurich University of Arts and Kunstuniversität Linz. This installation proposes a simultaneous visualization of contradictory territorial qualities of the region between Cabeço do Pião and Barroca do Zêzere in Portugal.

The documentary footage urges viewers to question the effects of mine exploitation on the landscape and on its inhabitants’ lives. Minerals are collected from underground and exposed to light in the form of inverted hills – the so-called lavrarias or heaps – which impose themselves on a landscape, where nothing pristine remains.


Video and audio recordings were produced during an artistic residency period in August 2019, with the support of the Schist. Villageshttps://laetitiamorais.weebly.com/

COLD EVENING – 2019

This installation proposes a simultaneous visualization of contradictory territorial qualities of the region between Cabeço do Pião and Barroca do Zêzere
(Portugal). Documentary footages or reveries urge to question the effects of mine exploitation on the landscape and on its inhabitant’s life. Minerals collected from the underground and exposed to light in the form of inverted hills – the so-called lavrarias or heaps – impose themselves on a landscape, where no pristine remains.
Esperança Antunes and her partner José Catarino walk twice a day along the faint track that separates the Zêzere River from the ore mines. Along this path – they
say – one either sings or cries or is silent.
However, nothing is self-evident – images move in the intrinsic relationship between effect-affect and it is precisely by indeterminacy that this work is shown.
Recall to Michel Serres’s definition of «third zone», where neither the sun nor the earth is the center. He states that the real center of an orbit lies between the bright
sphere and the shadow point (1).
Moving matter from the center of the earth to the outside also seems to influence the trajectory of its surroundings: Esperança declares her intent, the snake sings and the river dies.


Video and audio recordings were produced during an artistic residency period in August 2019, with the support of the Schist Villages.
(1) Notes: “Le centre réel de chaque orbite gît exactement à une tierce place, juste entre ses deux foyers, le globe étincelant et le point obscure.”
Serres, Michel (1991), Le tiers-instruit