Linha do Côa à Fluxus

Da arte rupestre do Vale de Côa a Fluxus dos Barruecos do Museu Vostell Malpartida : Mobilidade, Caminhada e Paisagem

Todos os sentidos são mobilizados na travessia de uma paisagem.

Nestas propostas de oficinas, ouvir e mover-se, experimentar, olhar e ver torna-se essencial.

Como uma extensão das experiências realizadas com a UBI (Montanha Magica* 2018), Carlos Casteleira e François Parra (Ecole Supérieure d’Art d’Aix-en-Provence) propõem em 2022 em parceria com a Universidade da Beira Interior (Covilhã – Portugal) e a Universidade da Extremadura (Cáceres – Espanha), os Museus Vostell de Malpartida (Sp) e Vale de Côa (Pt), uma oficina cujo objetivo é uma reflexão sobre a perceção da paisagem. Uma proposta para explorar o território através da voz (canto), do gesto (desenho), do olho (imagem) e do movimento do corpo. A produção de um documentário acompanha o projeto em parceria com o Departamento de Cinema e a o LabCom (UBI.

Tendo como modelo “Song Lines” (Bruce Chatwin), esta Master Class é uma adaptação livre da descrição do autor de como os aborígenes encontram o seu caminho quando se movem pelo mato. Bruce Chatwin relata que cada aborígene nasce guardião de uma canção única que lhe foi entregue e que ele não pode ceder ou trocar. Esta canção permite-lhe mover-se e orientar-se de acordo com uma trajetória precisa e única no mato. Podemos imaginar que os toques, ritmos e variações desta canção são elementos sonoros para descrever, reconhecer e articular as particularidades do território (cores, relevos, texturas, habitantes, animais…).

Os artistas Catherine Melin, François Parra e Carlos Casteleira acompanham este trabalho de exploração da paisagem pelo olho e pela mão, pela voz e pelo corpo como ferramentas de ecolocalização.

Pede-se aos participantes, durante alternâncias de pausas e deslocações que traduzem fragmentos de território e trajetórias. Estas trajetórias escolhidas por cada um de forma livre são repetidas até que a canção e o desenho resultantes sejam memorizados. Todas as canções são gravadas separadamente, mas na perspetiva de uma restituição polifónica constituiremos elementos de uma cartografia subjetiva e sensível dos lugares. Os elementos gráficos e sonoros serão articulados numa psicocartografia. O corpus de sons e imagens recolhidos será apresentado durante uma sessão coletiva no Museu Vostell Malpartida. 

Posteriormente o documentário e uma exposição retratarão esta experiência espacial-temporal e cartográfica dos lugares, territórios e paisagens atravessadas.

Ref:

Henry David Thoreau, Stalker, Richard Long, Hamish Fulton, Francis Alÿs, Abraham Poincheval

Song Lines de Bruce Chatwin, Biblio – Poche (1990)

Le Paysage est une Traversée de Gilles A.Tiberghien. Edições Parenthèses (2020)

Pré-história do sentimento artístico – invenção do estilo de Emmanuel Guy há 20.000 anos. Les presses du réel (2011)


COMO OS ARTISTAS SE DEDICAM A CAMINHADA E À PAISAGEM ?

Caminhar é uma experiência do ver e do sentir. Combinada com o apetite do bem-estar torna-se o instinto de sobrevivência, uma consciência transmutada em prazer e desejo. Desejo de vida que exige habitar o mundo, alimentar-se, mover-se, criar espaço e perpetuar a espécie, numa convivência com todas as espécies vivas e não vivas da biosfera.

O caminhar e a mobilidade constituem uma experiência primordial, incontornavel para produzir um espaço, uma espacialidade.

O movimento e a intensidade da exposição ao calor e à luz dão ao órgão da pele, e à fotografia, visibilidade. Caminhar leva-nos a uma consciência do espaço. E o que vemos deste espaço quando nos movemos? É a paisagem, a parte visível e sensível desta consciência.
Esta visibilidade, este traço, esta legibilidade, esta escrita, da qual por vezes perdemos a consciência, opera entre nós e o nosso ambiente uma dinamica que actua em nós, transduzindo forças e energias.

Estas paisagens, estes camponeses, nós, os nossos lugares e condições de vida, imagens e palavras, não estão livres de outras abordagens que nos informem. Os diferentes possiveis da paisagem, no sentido lato da visão e das experiências hápticas, desconstruem e reconstróem o espaço e o território, transformando a paisagem em linguagem, significante e significado.

Este WS baseia-se nas experiências realizadas desde 2017 em Portugal, e em Espanha. Com a Linha do Côa a Fluxo, o princípio metodológico é experimentar, a partir das caminhadas e (i)mobilidades, uma escrita artistica do espaço.

A repetição destes workshops (e residências de artistas), exposições e seminários, durante os quais são estabelecidos protocolos de cooperação entre artistas, comunidades e instituições, torna-se uma força motriz da exploração dos territorios de montanha. O objectivo desta repetição é construir uma rede entre estes espaços.

Nas pegadas do projecto Walking the Data, realizado no âmbito da Ecole Supérieure d’Art d’Aix en Provence entre 2016 e 2019, um arquivo cartográfico metódico das acções realizadas, e fotografadas, permitir-nos-á levar o espaço sensível da paisagem para o espaço icónico e simbólico do mapa.